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Valdir Anzolin, o jovemque resolveu cantar

  • Foto do escritor: O Longevolo
    O Longevolo
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura


Há sessenta anos, quando ser descendente de italianos na Serra Gaúcha ainda carregava o peso do preconceito, um jovem escolheu cantar. Não por acaso, mas por coragem, por amor às raízes e pela convicção de que uma cultura não pode morrer em silêncio.


Valdir Anzolin pertence à linhagem dos artistas que não entretêm, apenas, mas que salvam memórias. Assim como Cândido Portinari transformou a herança italiana em tela e cor, ele a transformou em canção e baile. O artista foi até onde o povo estava. E o povo, reconhecendo a si mesmo em cada nota, foi até ele. Cada festa italiana era mais do que entretenimento.


Quando a polenta chegava fumegante à mesa, quando o salame era cortado na tábua, quando o queijo e o vinho perfumavam o salão antes mesmo do show começar, a comunidade estava lembrando. Estava se reconhecendo. A polenta, o salame, o queijo e o vinho não eram apenas cardápio, eram a língua que a saudade falava. Comer juntos era lembrar juntos. E foi assim, de cidade em cidade, de festa e baile pelo Brasil, que Valdir levou a italianidade para onde ela precisava chegar ao coração do país.


Cantar no dialeto dos avós em uma época em que isso era motivo de vergonha, era um manifesto. Era dizer em voz alta “esta língua existe. Esta cultura existe. Este povo

existe”. Sua arte juntou-se a várias lideranças da cidade, da região, inclusive da Universidade de Caxias do Sul, que entenderam que a cultura é uma área estratégica, e que

deixar a memória italiana morrer seria uma derrota de todos. Decorrentes desta compreensão, também foram muitos os atos de coragem e de resistência nos tombamentos de bens culturais, dizendo aos donos do poder que essas memórias pertencem ao povo. Muitos não resistiram, mas os que permaneceram são motivo de orgulho e são atrações na nossa região.


Sessenta anos de carreira não são apenas sessenta anos de palco. São sessenta anos lapidando uma arte, uma missão, uma identidade. Valdir Anzolin não é apenas um cantor. Ele é um mestre, no sentido mais profundo e honroso da palavra, cuja vitória é celebrada em cada festa, em cada taça de vinho em cada acervo preservado da cultura italiana.


Mas nenhum legado se constrói sozinho. O sucesso dele é também o sucesso de cada pessoa que foi a uma festa, que dançou um baile, que acreditou quando poucos acreditavam, que comprou um disco, que aplaudiu de pé.

Foi a solidariedade de uma comunidade e de um país que transformou um cantor corajoso em patrimônio vivo. Por sessenta anos, Valdir cantou. Cantou quando era vergonha. Cantou quando era resistência. Cantou quando virou orgulho. E hoje, quando a polenta volta à mesa e o vinho é servido entre amigos que se reconhecem como filhos da mesma história, ele ainda canta.


Nós, parentes próximos e distantes, o parabenizamos porque acompanhamos de perto o seu dia a dia. Nos juntamos a toda a nossa comunidade, aos fãs da região, e amigos descendentes de italianos, ou não, de todo país, e agradecemos porque acreditamos que a memória coletiva é o substrato da sua história.


Este não é apenas o legado de um homem. É o legado de um povo que escolheu não esquecer. E a festa de hoje é a vitória de todos nós.


Liane Lazzaroto Simioni
Liane Lazzaroto Simioni


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